domingo, 16 de março de 2008

Para não dizerem, que eu não falo do amor




Procurei nas estrelas
O significado do capricho
Olhei para as três Marias
Na procura da inconseqüência

De dentro de meu crânio doido
Procurei o gemido do amor
Repelido e estrangeiro em mim
De fuga entre o abstrato e o que penso
Absorto no esquife de meu coração oco

Hoje, degusto os biscoitos da sorte
E quem sabe um dia,
Encontre o que não foi começado
Porque o ideal ainda não acabou
Neste meu ócio de tempo indecifrável
Onde ainda velo pela seda sonhada.

Fernando A. Troncoso Rocha

A pimentinha




A América a viu, como uma linda paixão
Saída lá do sul, da cidade que se diz alegre
Ela amava a vida e vivia como nossos pais
Em seus sonhos menores que a vida

Desnudou a vida, como uma eterna bêbada equilibrista
Flertou com os versos, com seu coração de estudante
Cuidou da vida, como uma caipira aprendiz
No palco, travestia-se de louca, como a dona do bordel

Em águas de março
Dignificou o nosso pranto
Encantado e inventado
Como se fosse mais uma nova paixão
De pau e pedra, fomos o seu falso brilhante

Como o novo, nos trazia irreverências mil
Descreveu o país tropical, abençoado por Deus
Com o sol na cabeça, na corda bamba da vida
Hoje, ainda somos os mesmos e vivemos
Muitos sonhos cantados e eternizados por você!


Homenagem a primeira cantora brasileira, que teve registrada a sua voz, como um instrumento musical neste país. “Elis Regina 1945 / 1982”



Fernando A. Troncoso Rocha

Mar a dentro




Filhos de Gaia
Foram titãs do mundo azul
Hoje! Pálidas crianças
Sem o amor de mãe

Filhos de regime transitório
Em escalas de equivalência
De coeficientes na transmissão de calor
Onde o mundo físico, vos amortalhou!

Eles, de açúcar e caixão de enterro
Bebem-se insanamente
Bebem-se incessantemente
No êxito intacto da sensação do nada

Ainda reluzem cintilações de Gaia
Onde os cavalinhos e cavalões correm...
Diante do Sol tão claro
Que cega como o brilho da esmeralda

Como flores murchas
Os andróginos que enterram o divino
Tocam pandeiros com a mão
Na exuberância dos sentidos privados de inteligência

Agem como fartos do lirismo namorador
Em vidas de amantes exemplares.
Ah, pungentes bêbados do lirismo dos loucos
Em silêncio gritam: abaixo os puristas!

De dentro desta paisagem erma
Coadjuvantes artistas, tão docemente provincianos
Choram sem o olhar de pai
Dando voltas vadias, onde a poesia morre...


Fernando A. Troncoso Rocha

Um sonho de liberdade




A mente não queria ser mãe
Mas carrega os desejos do mundo
Ela vem para misturar, vem para separar
Dizendo-se ser feliz...

Queria eu, ter uma mente virgem
Afastada dos desejos do mundo
Para não esgarçar as estrelas
Embalsamada nas sombras

Queria eu sentir a magia
Nas sensações de prazer
Neste globo da morte
Regado de má sorte

Queria eu ter o corpo fechado
Para os fantasmas do mundo
Onde o silêncio me absorve
Entre berros e assobios

Como um soldado do violão
Sobrevivente da insensatez
Espalho sêmen em segredo
Como uma sombra de carne febril

Internado nesta gaiola de loucos
Suspiro, transpiro, arrepio,
Como se tudo fosse à primeira vez...
Sem a eterna melancolia.


Fernando A. Troncoso Rocha

Holocausto




A palhoça era fina
Com a cachaça se convivia
Corações de estudantes tinham
Debutantes da vida se sentiam
Com as maiores orelhas do mundo!

Sabe, depunham contra as mentiras do mundo
Balançando na rede
Inventando o que já haviam inventado
Nos hits da matéria bruta

Atirados de um penhasco
Sorriam a gracinha do mundo
Passeando em algum espaço vadio
Deslizando e delirando na casca de banana
À procura de amoras doces
Mas sorriram ao limão azedo
Pederasta de público alvo franzino

Hoje, balançam no cipó da vida,
Fino e traiçoeiro...
Mas que enche de emoções divinas
Balançando na rede do destino
Neste sopro de overdose da vida

De maquiagem feita
Destilam o perfume...
Desfilando com uma Ferrari conversível
Como agente pistoleiro, condenado a prisão
Entregue aos alemães

Eram jovens patéticos
Aprisionados no holocausto
Fundadores do horror do conforto
Neste apelo comercial, rodeado de colchões

Sem compromisso, olhem o que vos falo
Sem serem estátuas do ovário profundo de tristeza
E digam...
Adeus as armas!

Dando perdão aos seus books
Como softwares desatualizados
Desses lares desfeitos após guerra
Mantido por vendedores de tese obscura
Absolutamente lindas
Na descriminação de público
Destinados as prateleiras dos fundos

Vem aspirina!
Neste particular para hóspedes
Tentando ser a musa de verão
Transando com a história
E urinando com a vida
Enquanto ela dura
Por motivos tão estúpidos

Bom, tentas apenas vender carros...
São usados!
Mas os quatro pneus estão zerados
No espírito de natais passados
Na tenacidade e perseverança da vida

Deflagram o mau destino
Parceiros do destino de algum DNA
Egocêntricos de algum momento
No churrasco de carne mal passada
De alguma hemorragia
Porque perdemos o bebê.


Fernando A. Troncoso Rocha

Grito de carnaval




No macabro mundo dos artistas
Cravaram uma adaga em meu peito
Sangrando aqui com todo respeito
E refeito, grito!

Sou o louco que te alisa a testa
E como antigamente, te ofereço a aurora
Não como uma dor de dente
Mas como a do primeiro riso
Sempre adolescente

Vamos brincar menina...
Com os anjos da gentileza de mães
Nesta vida transitória
Meio suja e sem glória
Nesta prova de afeto
Onde somos apenas objetos...


Fernando A. Troncoso Rocha

Cumple años





Houve dias de fantasia
Alguns eram sonhos de alegoria
Na finita vida dos mortais

O olhar do dia e da noite
Sorria como debutantes
Na festa totalmente deslizante
De versos abundantes

Era o aniversário depositante
Entre os versos bestialmente delirantes
Dos amantes da poesia

Parabéns diziam, parabéns...

O poema da vida se fortalece
No peito de cada leitor
Clichê da vida, quiçá...
Descrito no riso e choro do poeta
Ao ver a imagem refletida
Nos sonhos dos outros.


Fernando A. Troncoso Rocha

Peregrino




Sigo o meu sonho de liberdade
Com o calor lúbrico do sol
Sacudido pelos vendavais
Do velho lar paterno
Tão senil, tão gentil...

O precipício é o céu
Deste enlace de amante
Divino e bálsamo
Onde me cala a ansiedade
No meu paternal sacrário

Eu, entre os criadores do entretenimento
Faço parte da parte técnica
Nesta mania de dirigir
As almas pasmas de si
Onde os astros morrem lento

Neste elenco que se ensaia até a exaustão
Tento viver, onde o perfume embalsama os ares.
Dou a mão, ao sorrelfo que é de lájea fria
Com os meus versos de sombra exilada
Nesta escuridão dos altares

Pai, suplico tempo nesta pousada
Para me banhar-me na cruz
Sem fé e sem luz
Nestas estrofes que gaguejo
Onde o trono, é o poema...

Fernando A. Troncoso Rocha

Solidão




Fardo majestoso impresso no choro
Delinqüente e vil de enfermas matérias
No ritmo tardo do vigor, que traça infinitos soluços
Complica e espreita a carne, eu bem o sei!

Adormecido na cabeça, ele faz, Psiu!
No calafrio de histeria, como vaga-lume...
Conhece todos os afagos, em êxtase da fútil presa
Nesta posse brusca, que desrespeita quem sou

Gozo obsidente que fascina, bem o vê
Em ser lírico como amante de plebe amiga
Nesta simbólica ternura que não desmente

Meu suspiro insensato do abismo
Dionisíaco de fúria sombria que me constrange
Faz-me refém, na volúpia desta amargura.


Fernando A. Troncoso Rocha

Fora dos trilhos





Meu coração não rima
Minha mente também não rima
Ah saudades dos duetos que fazia...

Hoje, vivo no beco da agonia
Sem lenço e sem documento
Seguindo um caminho a minha revelia

Como era bom ter as rédeas nas mãos
Cavalgava em pelo
Sem dar nenhum escorregão.


Fernando A. Troncoso Rocha

Afeição




Bramido do lago da poesia virgem
Estridente peregrino de grande sopro
Sacode estrofes da qual rio a graça
De um bardo errante audaz
Glória e maldições de solidão sagrada
De um grupo que acredita em fadas

Velho cão de guarda
Meu senhor d’outrora...
Taciturno no seio das rosas
Vela-me ao musgo que trepa o muro
Onde fogem lúcidas manadas
Donde o jardim será inculto

Vem poema santo
Da moita em que a escuridão saía
O colibri dourado de rubente flor
Onde o sol morria

Murmúrio vago, que encanta os ares
Suspiras ao lago onde fica o ninho
Diz a vaga extensa na harmonia imensa
Que vive do aroma, do que se chama mel.


Fernando A. Troncoso Rocha

Percorrendo a visão




Na verve do autor
Violando o tom das auras
Lânguido e despeitado às vezes
Mas mimoso em sua lenda oculta

Viajo, em pura emoção
Em teus versos bardos
De imagem e som
Roliços em minha mente
Dédalo em meu coração

De amante não se queixas
Entre os frios cadeados
Da vasta escadaria
De visões sutis e brandas.

Fernando A. Troncoso Rocha

Negócios públicos


Hoje não vou iludir

Iludido já me encontro

Hoje não vou ser importante

Importante na vida que m’escondo


Por ser abutre, eu fumo metade de mim

Entre o rancor do vento da desgraça

E o ululante trilho de perdição

Sou a cinza da pudica inocência...


Sou filho de Maria

Herdeiro de José

Daquela gangue amorosa

Rainha e cortesã

Onde campeia o morno céu


Da febre que me enalteceu

Sou cúmplice do erro que ocorreu

Nas chicotadas que dardejam

Cobertas de brilhantes

Do litígio humano, que permeia o Deus clemente

Ao cardo, que apenas medra em seu silêncio


O corvo, fantasiado de arara

Espia debruçado à caravana errante

Negro, sombrio e arquejante

Sorri as tribos, faminto pela prole desgraçada

Neste pasto de sangue onde se nutre


Para os astros que vendem seus irmãos

Há dois mil anos gritamos...

Meu Deus! Meu senhor! Meu Jesus!

Afaste de si o veneno

De galanteio vazio e desumano.




Fernando A. Troncoso Rocha